A práxis do existir

O conceito de práxis começa com a necessidade de criar e modificar o meio. Modificar o meio com um objetivo prático é exercer uma práxis. Criar algo que facilite uma tarefa ou um trabalho. Com o uso da força e da inteligência, coletar produtos na natureza que facilitem suas necessidades e tarefas. Coletar e transformar o extrativismo em algo prático e útil.
Um simples conceito de práxis pode ser entendido a partir de alguns artefatos indígenas. Como cortar palhas e trançar-las, para construir um cesto, que vai ter uma utilidade de transportar frutos e raízes, ou objetos menores. Os homens podem construir cestos e transportar suas caças e pescas, enquanto mulheres podem transportar seus pequenos filhos. Em cestos e tranças, modalidades e utilidades diferentes para cada finalidade.
Cortar galhos de uma arvore para construir uma armadilha para caçar ou pescar, construir uma armadilha para obter alimentação de origem animal. Imprimir uma força física para modificar, e transformar um elemento retirado da natureza. Cortar, quebrar, raspar, vergar um vegetal com objetivos de construir um objeto. Construir um arco e uma flecha, que poderá ajudar na caça e na pesca. Aplicar o uso de uma energia acumulada, que pode dar impulso a uma flecha, quando liberada. Praticar tarefas sem ter um conhecimento da física, da modificação dos corpos e da transformação de energia.
E o homem chamado civilizado também construiu sua práxis. Cortou galhos e fez uma fogueira para se aquecer e preparar alimentos. Com paus e pedras sem argamassa construiu uma habitação. Com algumas pedras protegeu o fogo do vento, evitando desperdício de calor. Com peles e couros de animais fez agasalhos e abrigos. Evoluiu seu conhecimento e evoluiu sua práxis. Juntou produtos de origem animal, mineral e vegetal, construiu e criou novos produtos. Acrescentou energias invisíveis como a eletricidade, que facilitou e criou possibilidade de novos usos e novos produtos. Transformou o que poderia ser lenha em carvão. Misturou água, terra e calcário para produzir uma argamassa. Anteriormente já havia misturado capim e barro para construir tijolos. Com o fogo transformou os blocos de argamassa em novos tijolos. Fez panelas de barro e de pedra.
O homem considerado civilizado – por ele mesmo. Elaborou a sua principal práxis, a arte de anotar seus inventos e suas ideias. Com o uso da escrita perpetuou seu conhecimento, ultrapassando séculos e gerações. Enquanto índios permaneceram no conhecimento oral, transmitido de geração para geração.
E o conhecimento não para, de crescer, de ser aumentado e articulado. Daí vem uma necessidade de estudar o que já é estudado, e o que já foi estudado. Criar metodologias que façam medidas, qualitativas e quantitativas. Torna-se necessário quantificar e qualificar algo para agregar valor. Criar um novo produto com o conhecimento já existente. Analisar a historia oral por meio da escrita. Analisar documentos de uma era que fora escrito, sem a intenção da perpetuação documental. Tornar os escritos como argumentos para o conhecimento implantado e reconhecido hoje. Juntar algo que eram somente cinzas, para criar uma fênix.
Depois de transformações, que modificaram o meio, surge uma nova práxis. Daí então vem outras práxis, para serem analisadas e observadas. A práxis do existir, a transformação do mundo por uma simples existência. Uma práxis exercida por aqueles que a sociedade discrimina e exclui, denomina por seres improdutivos, aqueles que não criam objetos, que não produzem valores. Algo com um valor de mercado, com um valor determinado por aqueles que criam valores. Algo que tenha um valor para aqueles que estão imersos em valores. Algo que determinem um valor, uma utilidade. A práxis daqueles que não produzem bens visíveis, mas podem produzir bens intelectuais, gerar um conhecimento, pela simples observação do meio.
A sociedade exclui e discrimina os denominados vulgarmente: de cego, de mudo, de surdo e de aleijado. Portadores de uma dificuldade ao extremo, mostrando que cada um pode ter aquelas mesmas dificuldades, em proporções mínimas, individualizadas ou mescladas.
Os conceitos mudam e a sociedade evolui, encarando o problema, dando oportunidades e facilidades a partir de uma nova definição e conceituação de adjetivos vulgares. Passam a ser denominados como portadores de alguma deficiência: portador de deficiência visual, verbal, auditiva e portador de uma deficiência de locomoção. Deixa de ter um problema para adquirir o status de portar algo, portar uma deficiência de um aparelho ou sistema orgânico. Portam uma incapacidade de ser considerado como normal.
A sociedade não discrimina os portadores de deficiência olfativa e gustativa, já que não afetam ou influenciam os movimentos e os comportamentos dos outros. Não impedem o ir e vir de outros, não impedem ou atrapalham os caminhos.
A práxis do deficiente surge por uma indagação, de que maneira ele modifica o meio, como modifica o pensamento e o meio em que vive. Um dia o homem deixará este planeta, e os critérios de embarque já vem sendo construídos. Desde há muito tempo já existem critérios de desembarques, os critérios de abandonos de navios, quando estão à pique. Critérios muito citados e retratados em filmes antigos, mulheres e crianças abandonam o navio primeiro. Uma época que deficientes físicos eram deixados para trás, a prioridade retratada é de crianças, e de quem poderia cuidar daquelas crianças, podendo ainda gerar novas crianças. Um modelo de sobrevivência da espécie. Filmes catástrofes sempre mostraram marinheiros dando avisos que mulheres e crianças devem embarcar com prioridade, nos botes salva vidas. O capitão da embarcação, o portador de uma autoridade e de um conhecimento, não deve abandonar o navio, enquanto tripulação e passageiros não se encontrarem em condições mínimas de segurança, que possam garantir a sua sobrevivência.
Desde algum tempo já existe um critério e um privilégio, no embarque em aviões. A começar por portadores de alguma insuficiência ou deficiência na ação de locomoção. Depois os passageiros com crianças, independente do sexo da pessoa que conduz a criança, tem prioridade no embarque. Crianças de colo ou crianças que já podem andar. Crianças que podem andar, e que por um descuido podem criar situações de perigo, ou de emergência, vão acompanhadas de seus responsáveis. E os critérios de embarque e desembarque em naves espaciais vão sendo criados e popularizados.
Alguns grupos já tem uma prioridade para embarque, mas ainda terão que aguardar que todos os outros grupos embarquem, para então o avião começar as manobras de decolagem. Prioridade requer paciência de ambos os lados. Em casos de acidente em avião, cada um dos passageiros já foi instruído pelos comissários, por palavras ou por gestos; ou pelas informações contidas em folhetos, normalmente localizados atrás das poltronas, no porta-revista. Em um acidente com avião também há critérios de abandono da aeronave, contidos nas instruções em folheto encontrado a bordo. A primeira hipótese é de fazer um pouso emergencial na água.
Um transporte urbano de passageiros, sobre trilhos ou sobre rodas, oferece assentos especiais, e exclusivos para deficientes e idosos. Certa quantidade de assentos com cores vivas estão destinados a idosos, gestantes e deficientes. E os BRTs e os VLTs vão promovendo um conhecimento de acessibilidade aos seus passageiros. Os BRTs e VLTs promovem aulas de segurança e de acessibilidade nos transportes, com a escrita e a fala, em dois idiomas, no caso brasileiro, português e inglês. Os anúncios das próximas estações também são bilíngues. Transportes modernos ainda promovem uma acessibilidade climática, beneficiando estrangeiros acostumados com temperaturas mais baixas, em contra partida, ofertando um conforto para quem está acostumado com altas temperaturas. Equipamentos de ar condicionado proporcionam um ambiente padrão de temperatura e umidade.
Auditórios oferecem cadeiras mais largas para pessoas obesas, podendo ser encontrados na primeira ou na ultima fila. Guardando a opção para o usuário, o quanto ele vai se deslocar dentro do auditório, e escolher a opção de ficar mais longe ou mais perto do palco. Alguns transportes como ônibus também oferecem assentos para obesos. Cada qual tem uma dificuldade de locomoção e cada qual vai servido de exemplo para uma acessibilidade e mobilidade global.
A partir da acessibilidade, enquanto uns podem ter prioridades e privilégios, outros podem recusar prioridades e privilégios, tendo a opção de se adequar ao modelo padrão. Como uma dieta de emagrecimento, chegando ao extremo de uma operação bariátrica, na intenção de se enquadrar em um modelo padrão de beleza ou desempenho físico. Próteses também podem criar e ampliar esta acessibilidade.
A arca de Noé não fez distinção de animais. Cada casal podia chegar e embarcar. E o homem vai se civilizando, vai se aprimorando, para não ser classificado ou discriminado, com um ser sem educação, ou um animal, na próxima arca da sobrevivência.
Os deficientes visuais exercem a pratica de ensinar comportamentos. O comportamento para mostrar que nem todos têm a mesma capacidade e acuidade visual, criando estratégias pelas ruas de uma acessibilidade total. Travessias de ruas e avenidas alem de contar com o tradicional sinal luminoso, podem contar com sinais sonoros.
Os deficientes físicos mostram que nem todos têm a mesma habilidade e velocidade de locomoção, precisam de um tempo maior que uma maioria considerada normal. E não basta para correr ao atravessar a rua, tentando se adaptar ao tempo regulamentado. As faixas de pedestres, pintadas no chão são calculadas, por um tamanho determinado, de um passo em tamanho padrão, e por uma quantidade de passos padrões, em um tempo padrão, necessários para atravessar uma rua de tamanho padrão. À medida que as populações de deficientes aumentam, e a geografia urbana se modifica, surge uma necessidade de reavaliar os padrões. Os sistemas de BRTs e VLTs vem modificando a geografia urbana, e os critérios e prioridades entre veículos diferentes e pedestres.
Muitos podem desenvolver atividades de uso da força, e da musculação, da capacidade física, como o caso de algumas profissões. Outros exercem atividades intelectuais.
Escrever? Para que escrever? Para quem escrever? Por que escrever? Para mostrar para aqueles que andam muito rápido e não percebem o que acontece a sua volta. Correm motivados e viciados pela adrenalina. E precisam de um momento para parar e ler o que foi escrito, o que alguém viu e escreveu, e ele não percebeu.
A ocupação de sempre. Quem não escreve precisa estar ocupado com outros afazeres, precisa ocupar a mente.

Rio de Janeiro/RJ ─ 12/10/2014

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